VOLTAR A LISTA DE NOTICIAS

Doação de sêmen: prazer em ajudar
Em São Paulo, banco de esperma atende a 40 pedidos mensais de casais
estéreis em busca de filhos. Mas precisa de doadores

EDUARDO ZANELATO


Sala para todas as preferências e idades: revistas, DVDs e VHS

Homem, 1,70 m, constituição óssea pequena, 70 kg, olhos castanho-claros, cabelos
castanhos, raça caucasiana, origem étnica europeia. Esta seria a descrição do
repórter caso ele fosse um dos doadores do Pro-Seed, banco de sêmen de São
Paulo que recebe, em média, 40 visitas por mês de casais inférteis interessados em
ter filhos por inseminação artificial ou fertilização in vitro. Justamente pela
demanda, o Pro-Seed passa por uma baixa em seus estoques e apela para que a
população masculina se conscientize acerca da importância de doar sêmen. Se o
baixo ritmo de doações persistir, os estoques vão acabar.
O processo completo de doação costuma levar quase um ano entre os primeiros
exames e a liberação do sêmen para uso em inseminações - portanto, a reposição
é lenta mesmo quando há crescimento no número de doadores. Para mostrar os
meandros da doação, a reportagem de Época São Paulo se submeteu a exames
de sangue, espermograma e consultas médicas. Abaixo, o repórter descreve cada
um dos passos para se tornar um doador:


Manual de instruções para o trabalho manual

Preliminares: O primeiro passo é responder a um questionário com as
informações que estão no início desta reportagem. Ao final, pede-se que eu diga
quais são meus hobbys. Em dúvida, fui pouco criativo e escolhi: ler, correr e
comer. Na sequência, a médica Vera Fehér, coordenadora dos trabalhos do Pro-
Seed, me apresentou um “instrumento de doação voluntária de sêmen” por meio
do qual concordo em me tornar doador sem receber um tostão e me manter
anônimo. É uma maneira de resguardar os pais da criança que será gerada de que
eu não causarei problemas futuros tentando conhecê-la. Depois da consulta, é hora
de “coletar” uma amostra de esperma para o exame de contagem de
espermatozóides. O resultado do espermograma é o primeiro obstáculo; se não
tiver no mínimo 80 milhões por mililitro, a pessoa não está apta a doar.

Sala especial: Para entregar a amostra, fui confinado numa confortável sala,
repleta de “estimulantes”: de desgastadas fitas VHS a DVDs, revistas e canais
adultos de TV à cabo. Nervoso com as práticas e os procedimentos (ter de
despejar o material diretamente no potinho, higienizar as mãos e não deixar o
“material” vazar, basicamente), escolhi o primeiro DVD à mostra e assisti. Sem
som. É que o fato de a sala ficar no meio do laboratório me fez pensar o quanto
seria constrangedor “coletar” o material com os funcionários ouvindo os gemidos
do filme exibido na TV. Objetivo cumprido, depositei o potinho sobre uma mesa de
uma sala contígua à “de coleta”. Depois de sair dali, voltei à recepção.
Constrangido em encontrar a médica logo depois da coleta, tive a sorte de ouvi-la
pelo telefone da recepção. “Já fez a coleta? Bem, então pode voltar para a próxima
consulta com os exames de sangue feitos”. Aliviado, com o perdão do trocadilho,
fui embora.

Dando o sangue pelo jornalismo: Num laboratório conveniado, tirei seis tubos
com amostras de sangue. Era para saber se eu era portador de HIV, HTLV1 e 2
(causador de uma doença degenerativa), Hepatites B e C e sífilis, além da
identificação do meu tipo sanguíneo. Dessa, eu passei ileso. Nenhuma doença,
tudo sob controle. Era hora de voltar ao Pro-Seed.

Três é demais: Dessa vez, fui recebido pelo urologista Milton Borrelli. A ele,
respondi um questionário ainda mais específico. De tão constrangedor, ele pediu
desculpas pelas perguntas antes mesmo de fazê-las. Entre os questionamentos, o
meu estado civil, número de parceiras sexuais no último ano, existência de casos
homossexuais em algum momento da vida, uso de drogas (cigarro, álcool,
maconha, cocaína ou quaisquer outras), alergias, comportamento sexual promíscuo
(mais de três parceiros sexuais no último ano, segundo a Organização Mundial
da Saúde), contato sexual com prostitutas e, em caso de parceira fixa, dados
sobre o comportamento íntimo dela. Outras doenças hereditárias também servem
como critérios de eliminação. Durante as perguntas, ele também faz uma espécie
de análise psicológica do candidato a doador, para checar se as informações dadas
são mesmo verossímeis. “Dificilmente reprovo alguém” diz o médico mais tarde.
Comigo não foi diferente e, enfim, eu estava apto a me tornar um doador.

Sexo solidário e solitário: Depois de passar nos testes, o doador é submetido a
seis sessões de doação. O processo para coleta é o mesmo do espermograma. Mas
é preciso abstinência sexual de três dias. Nem masturbação é permitida. É possível
doar de uma só vez, respeitando o prazo de três dias, ou com intervalos maiores
para quem não quiser permanecer abstêmio por um período muito longo. Depois
de coletado, o material é guardado e seis meses depois o doador é submetido a
novos exames de sangue. Se nenhuma doença for apontada, o sêmen está pronto
para ser inseminado, gerar filhos e alegrar um casal. Geralmente, os doadores têm
mais de 30 anos e são imbuídos de um espírito solidário: além de doadores de
órgãos, são doadores regulares de sangue. Aos interessados, basta ligar no Pro-
Seed e agendar a primeira consulta.

Pro-Seed. Rua Peixoto Gomide, 515, tel. 3171-1196 / 3323-6060.


VOLTAR